A segurança da Expocrato 2026, realizada entre os dias 11 e 19 de julho no Parque de Exposições Pedro Felício Cavalcanti, no Crato, conta com um robusto sistema de videomonitoramento baseado na tecnologia da empresa Paladium Corp, que atualmente se apresenta ao mercado sob a marca Pax. A utilização da plataforma no principal evento social e político do Cariri ganha relevância porque a companhia — que acumula investigações, suspensões judiciais e questionamentos técnicos em contratos públicos que somam quase R$ 1 bilhão em São Paulo, Paraná e Goiás — busca agora penetrar no Governo do Ceará.
A estratégia atual da Pax consiste em apresentar sua tecnologia à gestão estadual por meio de uma Prova de Conceito (POC) — uma demonstração técnica destinada exclusivamente à avaliação do sistema, sem que isso represente, neste momento, contratação ou operação definitiva no Estado. Segundo apurou a reportagem, o serviço na Expocrato está sendo prestado de forma totalmente gratuita à organização do evento, funcionando como uma “vitrine operacional” e comercial de soft power.
No entanto, o avanço da empresa em solo cearense ocorre em um momento de máxima turbulência jurídica e institucional em outras unidades da Federação, marcado pelo desfazimento de contratos e por um forte debate sobre governança e a atuação de ex-agentes públicos.
O “Gatilho” no Paraná: Sobrepreço de 925% e a mudança de nome
Os registros oficiais revelam que a mudança na identidade visual da empresa não alterou sua estrutura jurídica. O CNPJ 56.025.090/0001-20 continua registrado formalmente como PALADIUM CORP DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIA LTDA., ativa com um capital social de R$ 140,2 milhões, controlada pela Paladium Holdings LLC e administrada pelo empresário cearense David Peixoto dos Santos — que agora aparece em entrevistas e materiais promocionais como fundador e CEO da Pax.
A estratégia de abandonar o nome “Paladium” em sua comunicação pública acelerou-se em abril deste ano, quando o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) suspendeu um pregão de R$ 581 milhões relacionado ao programa de segurança Olho Vivo.
A Corte de Contas paranaense barrou o processo apontando riscos severos de sobrepreço, fragilidades na governança de dados pessoais sensíveis e dúvidas sobre a modelagem de subcontratações. O ponto que mais chamou a atenção dos técnicos foi a identificação de uma diferença de 925% para cima em um item relacionado à operação da plataforma em nuvem, quando comparado ao Smart Sampa, programa semelhante da capital paulista.
A contradição política: Oposição barulhenta em SP, silêncio governista no Ceará
A atuação da Paladium/Pax gerou um cenário de profunda contradição política nacional para o Partido dos Trabalhadores (PT). Enquanto a sigla lidera denúncias drásticas contra a empresa em São Paulo, o governo do Ceará, comandado pelo também petista Elmano de Freitas, mantém silêncio e abre as portas para testes da plataforma.
Em São Paulo, a bancada do PT e partidos aliados têm sido os principais artífices das representações que colocaram a empresa na mira dos órgãos de controle. O deputado estadual Luiz Fernando Teixeira (PT) e o deputado Antonio Donato (PT) foram autores de representações ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas (TCE-SP) contra o modelo de contratação da empresa.
A pressão surtiu efeito: recentemente, a Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (Prodesp) encerrou o contrato de parceria de negócios que havia firmado com a Paladium. O órgão apurava se o acordo de R$ 475,8 milhões, vinculado ao programa Muralha Paulista com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), tratava-se de uma triangulação contratual ilegal para burlar o processo formal de licitação e contratar a empresa privada com dispensa de concorrência.
Enquanto em São Paulo o PT aponta indícios de que as soluções de mercado com funções semelhantes custariam apenas 10% do valor apresentado pela Paladium, no Ceará a movimentação da Pax para homologar seu sistema junto à Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) avança sem qualquer contestação ou ruído por parte da base governista.
O fator Fernando Haddad e as conexões em paraísos fiscais
O peso político do caso ganhou contornos nacionais após declarações contundentes de Fernando Haddad (PT), ex-ministro e pré-candidato ao governo de São Paulo. Em entrevista ao podcast Três Irmãos, repercutida amplamente pelo portal de notícias Brasil 247, Haddad classificou a gestão da segurança pública paulista como “muito problemática” e colocou o contrato da Paladium no centro de um debate sobre moralidade administrativa.
“Houve uma denúncia em relação ao contrato da Prodesp, com dinheiro da Secretaria de Segurança, que contratou, por quase meio bilhão de reais, uma empresa formada há menos de um ano. Como é que uma empresa com menos de um ano de existência consegue um contrato de meio bilhão de reais com o governo do estado, sem licitação?”, questionou Haddad na entrevista.
Além do tempo recorde de criação da empresa para abocanhar um contrato estelar, Haddad ecoou pontos das representações oficiais que miram a nebulosa engenharia societária da Paladium Corp, que nasceu em julho de 2024 e possui vínculos diretos com holdings sediadas em Delaware, nos Estados Unidos, e em Nassau, nas Bahamas.
O petista fez questão de correlacionar o tema a alertas internacionais de combate à criminalidade: “A sede dela fica em Delaware, um paraíso fiscal nos EUA. O presidente Lula tem denunciado a prática de lavagem de dinheiro do crime organizado em Delaware”, disparou o ex-ministro, confirmando o envio das informações ao Ministério Público.
Sensibilidade institucional e o debate de sinaleira no Ceará
Além dos reveses em São Paulo e no Paraná, a Pax também enfrenta o bloqueio de suas operações em Goiás, onde a Justiça suspendeu um contrato de R$ 304,8 milhões firmado sem licitação para a implantação de videomonitoramento com Inteligência Artificial, acolhendo denúncia do Ministério Público de Goiás (MP-GO) sobre fortes indícios de direcionamento.
No Ceará, o ingresso da Pax por meio de uma Prova de Conceito ganha um ingrediente extra de alta sensibilidade institucional: a diretoria da empresa conta com o delegado Sandro Caron, ex-superintendente da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança Pública e Defesa Social do próprio Estado do Ceará.
O fato de um ex-chefe da pasta estratégica da segurança estadual figurar como um dos comandantes da empresa interessada em fornecer tecnologia ao Estado acende o alerta de especialistas em governança e direito administrativo sobre o risco de conflito de interesses. Embora a realização de uma POC seja um ato legal de prospecção tecnológica, especialistas alertam que o histórico de contratos desfeitos, as investigações de sobrepreço de quase 1.000% e o trânsito de ex-gestores exigem que os órgãos de controle do Ceará — como o Ministério Público Estadual e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-CE) — acompanhem cada passo dessa aproximação com lupa e transparência absoluta.
